PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO DE PESSOAS ADULTAS SOLTEIRAS DE COMUNIDADES PROTESTANTES

 


Mariluce Emerim de Melo August - Mestranda do Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica Paraná em 2010 - marilucearq@gmail.com

 

Profa. Dra. Mary Rute Gomes Esperandio - Psicóloga e Doutora em Teologia pela EST - Professora da PUCPR - mresperandio@gmail.com

 

RESUMO:

Neste trabalho levantam-se questões relativas à produção de subjetividade no contexto familiar e eclesial de pessoas adultas não casadas que potencializam o sentimento de aceitação limitada destes (as) pela condição de não serem casadas. São 20% da população brasileira as que não vivem maritalmente com alguém (IBGE 2000). A partir de pesquisa focada em percepções e subjetividade, identificam-se modos de subjetivação e sentidos atribuídos por estes sujeitos pertinentes à sua vida.

 

Palavras-chave: subjetivação – pessoas adultas não casadas – teologia e sociedade – comunidades protestantes

INTRODUÇÃO: PESSOAS ADULTAS NÃO CASADAS: QUEM PODE COMPREENDÊ-LAS?

Uma mulher solteira com 35 anos em minha comunidade não queria mais comemorar aniversário porque isso lembrava que mais um ano passou e ela continuava solteira e não resolvida. Esta mesma mulher queria construir uma casa e ficou adiando por muitos anos na esperança que surgisse a oportunidade de um casamento e de um projeto em conjunto. Ela não conseguia avançar. Estava paralisada no tempo, pois entendia que projetos dessa natureza só poderiam ser realizados por casais. Culpava-se com a possibilidade de construir a casa de seus sonhos sem que tivesse uma família para nela habitar.

Tenho presenciado muitas histórias como esta nos últimos 16 anos de convívio com pessoas adultas não casadas, pelo fato de ser eu solteira até os 41 anos de idade. Esta convivência iniciou-se principalmente em um trabalho da missão luterana de São Bento do Sul-SC denominada MEUC que desde 1985 reúne anualmente uma média de 150 pessoas em Retiros e Congressos Inter-denominacionais e incentiva a criação de grupos específicos vinculados à liderança da igreja local de origem do(a) participante. Mais recentemente, além de permanecer filiada a este programa da MEUC, estou envolvida juntamente com meu esposo em nosso trabalho religioso atual: Ministério Jovens Adultos, vinculado às Igrejas Irmãos Menonitas do Boqueirão que desde 2005 reúne mensalmente em torno de 50 pessoas de diversas igrejas de Curitiba em grupos de convívio saudável com seus semelhantes. Este assunto também é o meu tema de pesquisa e dissertação de mestrado em teologia pela PUCPR em 2011.

Estas são histórias de pessoas paralisadas no tempo e no espaço que tentam ou não, reorientar suas vidas após constatação de planos frustrados. Como se não bastasse o fato de não ter os projetos de vida realizados, ainda sobrevém um sofrimento decorrente da crise de sentido. O mais assustador é a falta de compreensão de familiares e de comunidades eclesiais. As próprias pessoas adultas não casadas não sabem de onde vêm seus sentimentos e reações a esses sentimentos. O fato é que eles vêm e tem muitas origens.

As expectativas a respeito do casamento vêm ao longo da vida desde a infância. Essas expectativas são subjetivadas desde o início de sua formação até a decorrência de sua concretização ou não. “Um processo de subjetivação diz respeito à produção de um modo de existência, à produção de estilos de vida e de relação com o outro e com o mundo”. (Esperandio 2008:18, grifo da autora). Entender o contexto e as origens de algumas formas de produção de subjetividade nos auxilia nessa compreensão. Determinados modos de existência, produzidos no contexto social, e em especial em contextos eclesiais, podem trazer sentimentos de exclusão às pessoas solteiras.

Discutir sobre isso é propósito desse texto. Com isso, conseguiremos apontar possíveis alternativas para melhorar a qualidade de vida de pessoas solteiras no meio eclesial, afim de que elas resgatem sentido em suas vidas, frutifiquem e tenham alegria naquilo que passam a acreditar que podem fazer.

SINAIS DOS TEMPOS

Em contextos religiosos e em familiares há uma priorização praticamente absoluta do cuidado com o relacionamento saudável entres os casais para preservar a união da família. Este cuidado quase exclusivo com os casais tem gerado situação de desconforto e sentimentos de exclusão em pessoas que não se enquadram neste perfil pelas mais diversas razões.

Estamos num mundo globalizado nesta primeira década do terceiro milênio. Um mundo onde a conduta do ser humano tende a ser subjetivada pela economia capitalista. Existe preocupação com estatísticas que verificam numericamente o comportamento dos seres humanos. A minoria deve acreditar que são estranhos e que devem se enquadrar no comportamento da maioria. Eles devem sentir vergonha de serem diferentes e preferir consumir o que a maioria consome para viabilizar a produção que alimenta o mercado econômico que prioriza o lucro excessivo.

Neste contexto de soluções em série para demandas comuns da sociedade, percebe-se alguns efeitos desse processo na temática das pessoas adultas solteiras em nossas igrejas. Ao mesmo tempo em que este público cresce de forma significativa em países capitalistas de tradição cristã, a maioria considerada normal da sociedade, principalmente em nossas igrejas que são os casais, é lenta em compreender esta realidade.

Esta falta de compreensão gera sentimentos de rejeição e abalo na auto-estima de jovens adultos (as), causando ou ampliando as proporções de sofrimentos inegavelmente legítimos.

Um fato curioso é que pessoas casadas não se dão conta disso e ficam perplexas quando descobrem esta realidade. Temos observado isso quando palestramos em igrejas ou comentamos sobre o assunto. É como se fosse uma novidade ou um despertar pra uma realidade que já existe a bastante tempo.

Um homem em nossa comunidade, casado desde seus 21 anos, que passou por divórcio aos 44, com várias funções pastorais e de liderança por mais de 20 anos, relatou que não imaginava que pudessem existir esses sentimentos sérios de exclusão nas pessoas adultas não casadas, por parte da igreja. Ele, saindo do convívio com casais, começou a observar as pessoas iguais a ele e aproximando-se, escutou histórias inimagináveis em sua vida anterior de casado e perfeitamente ajustado à comunidade. Percebemos que não existe maldade neste tipo de comportamento, mas constata-se que é notadamente produzido por uma cultura de padronização. A opção em ficar só não é vista com naturalidade ou normalidade em nossas igrejas, principalmente entre as pessoas solteiras.

Há ainda, na contemporaneidade, uma preocupação generalizada do sujeito consigo mesmo, focado em sua sensação de bem-estar. Essa preocupação é potencializada pelo mercado capitalista. Há um interesse de que seja assim para que possa produzir muitos bens de consumo no intuito de satisfazer esse sujeito. Ao mesmo tempo preocupa-se em produzir supostas novas necessidades para aumentar a sensação de prazer e bem-estar e conseqüentemente garantir os lucros financeiros. “[...] os meios de comunicação de massa formam o ambiente próprio para a expansão do capitalismo, pois é através da ‘onipresença da mídia’ que se dá a produção do desejo de consumo [...]” (Esperandio 2007:64). Há uma produção generalizada de desejo de consumo, de modos de vida, de certos tipos de comportamentos, porque produção em série e em grande escala é mais rentável e mais viável.

REFLEXO DO CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO EM NOSSAS IGREJAS

Ao mesmo tempo em que o sujeito é levado a querer satisfazer suas necessidades produzidas, é necessário também que ele queira o que a maioria quer e que sinta vergonha de não o ter. Esta percepção é muito forte no ser humano que há décadas, desde seu tempo de adolescência sente-se constrangido a não passar vergonha por não ter ou ser como a onda da maioria, da moda. Ele se importa e muito pela maneira como é visto e percebido e se esforça para ser igual às pessoas de seu grupo, idade, igreja, escola, entre outros. Muitas vezes ele prefere não ter identidade própria com preferências suas para não correr o risco da ridicularização, pois a preferência própria deve ser a da maioria para que se sinta incluído.

Prado filho & Martins apontam para uma visibilidade de duas vias: “do sujeito que se repete e se reconhece idêntico a si mesmo”, que se expondo à vista dos outros, torna-se “identificável e capturável pela lei, pela norma, pela moral.” (Prado filho & Martins 2007). Pode-se dizer que o sujeito que se expõe com condutas e escolhas diferentes torna-se capturável também pelo seu contexto familiar e eclesial. E esta captura gera desconforto por causa do diferente. Tal comportamento subjetivado é naturalmente também percebido no meio eclesial, que ao superestimar os casais, não percebe que os que estão fora desse padrão sofrem calados o constrangimento da exclusão. Como não existe espaço para elas, as pessoas adultas solteiras manifestam comportamentos estranhos como agressividade, introspecção, invisibilidade e “esquisitice”. Lembro desde a infância, que por não compreender este comportamento, vinham tentativas de explicação por parte das pessoas casadas: é falta de homem, ou mulher; ou é “solteirona” causando muitas vezes, sentimentos de culpa e vergonha em uma mulher ou homem que por alguma razão ainda não se casou.

Frankl, psiquiatra, criador da Logoterapia, com o exemplo de pessoas idosas que são descartadas quando não são mais úteis em nossa sociedade orientada pelo sucesso social e conseqüentemente adora as pessoas felizes, afirmou que a sociedade : “[...] Praticamente ignora o valor de todos os que são diferentes (e, ao fazê-lo, apaga a decisiva diferença entre ter valor no sentido de dignidade e ter valor no sentido de utilidade.” (Frankl 1985:127).

Podemos também aplicar essa constatação para a condição das pessoas adultas não casadas no contexto da maioria das igrejas. Grande parte das atividades e dos programas em nossas igrejas são pensados para casais e filhos. Esse é o padrão. Como é para o mercado econômico, os projetos ficam inviáveis quando pensados para os diferentes.

Em estudos sobre interação humana, Bolt & Myers, psicólogos sociais e professores de psicologia, compartilham pesquisas acerca dos modos pelos quais influenciamos uns aos outros. Eles aplicam as descobertas à igreja. Afirmam que as condições criadoras do pensamento grupal aplicado no caso das igrejas cristãs tendem, em nome do consenso e do medo do conflito, a tornarem-se vulneráveis, como em uma sociedade mais ampla, aos efeitos destrutivos da conformidade. (Bolt & Myers 1989: 94). Eles falam de uma ilusão geral de unanimidade. Citam um exemplo de caso onde “o desejo de manter a harmonia do grupo havia levado à supressão da discordância, o juízo crítico, o pensamento analítico independente e o exame dos prós e contras foram subvertidos numa tentativa de manter consenso no grupo.” (Bolt & Myers: 1989:92). Opiniões desagradáveis são suprimidas. Enfim, não é recomendável ser diferente.

A FORÇA DA OPINIÃO COLETIVA

Kierkegaard (1813-1855), conhecido como autor do existencialismo e da subjetividade, escreveu em tom provocante contra a forma de cristianismo praticada na época. Suas observações ajudam a compreender o relacionamento entre o homem e Deus que se reflete nos relacionamentos humanos.

Uma grande crítica sua é que os cristãos provocaram uma redução do indivíduo em prol da coletividade. Isso se deu pela perda da consciência de gravidade do pecado quando adotou-se a reconciliação remidora das culpas ensinada no protestantismo. (Kierkegaard 2003:93). Deus aceitará aquilo que se conceitua como correto, o conceito, desde que tenha o acordo da maioria e então não haverá juízo, pois ele não castigará a massa. Então o indivíduo fica protegido fazendo o que a maioria faz. Segundo ele, a igreja de sua época colocou o indivíduo abaixo do conceito pelo fato de não considerar o pecado como objeto especulativo. “Como não se pensa um indivíduo, tampouco se faz pensar um pecado individual [...] perder tempo com a individualidade? Esqueça-a, pois ser um indivíduo nada é. Mas pensa, e então serás toda a humanidade.” (Kierkegaard 2003:109). “Deus compreende a própria realidade, todo o particular ou o individual. O indivíduo não é inferior ao conceito.” (Kierkegaard 2003:110). Ele reforça que Deus e Cristo tomaram as suas precauções contra tudo o que é povo, população, multidão, público ou coisas do gênero.

Mas porque essa reflexão de Kierkegaard? Porque ele acredita que o ser humano pensa que tratando os erros da humanidade no coletivo diminuiria a severidade da pena. Ao mesmo tempo em que a cristandade faz de cada ser humano um indivíduo, um pecador, falando da eternidade e de um julgamento final, exemplifica o que supõe ser o pensamento teológico da época: numa rebelião de soldados ou marinheiros, os culpados são tantos, que não se pode pensar em castigar. A idéia de julgamento corresponde ao indivíduo, porque não se julgam massas. “daí se conclui que assim será na eternidade, que é suficiente unir-se e certificar-se de que os pastores pregarão no mesmo sentido”. Acredita-se que a maioria expressa a vontade de Deus. O fato de sermos em grande número e estarmos lado a lado nos livrará do juízo da eternidade. “[...] indivíduos éramos e perante Deus o continuamos a ser sempre”. (Kierkegaard 2003:111).

Para ele, desde que a abstração, que é deixar aos homens reunir-se naquilo a que Aristóteles chama de categoria animal, a multidão, é tida como alguma coisa, então pouco tempo é preciso para que a divinizem. Porque em alguns países a multidão soube impor-se aos reis e a imprensa aos ministros, descobre-se que a soma de todos os homens impõe respeito a Deus. “Aí está ao que se chama a doutrina do homem-deus, identificando o homem a Deus.” (Kierkegaard 2003:108).

Esse pensamento de que a força do coletivo pode manipular a Deus ainda persiste em muitos segmentos religiosos atuais. Buscam-se em preceitos padronizados, fórmulas coletivas para satisfação pessoal. Se todos fazem é porque deve ser o melhor modo e Deus não condenaria. O consenso determina a condenação ou não de Deus. E é nesse consenso que muitas comunidades eclesiais protestantes trabalham. Isso não seria ruim se houvesse a precaução de que os diferentes não se excluíssem por não estarem contemplados em seus projetos. Como lemos nas escrituras, não se deve fazer acepção de pessoas. “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade” (Tiago 1,2). Mesmo assim, persistem nas igrejas as classes excluídas e menos abençoadas. O sistema eclesial deveria rever à luz da Bíblia, certos comportamentos mecânicos que em prol da coletividade acaba reduzindo classes de indivíduos. Como escreveu Rosane Silva, psicóloga, mestre em Psicologia Social e doutora em Educação: “Um processo de subjetivação traduz o modo singular pelo qual se produz a flexão ou a curvatura de um certo tipo de relação de forças” (Silva 2005:28). E Bolt afirma que uma relação com Deus em forma de contrato baseado no mérito pessoal orienta nossa relação com outras pessoas. (Bolt 1989:142). Para ele sempre surgirão as perguntas:

“A outra pessoa merece realmente a minha ajuda e meu respeito? A necessidade é legítima? Até que ponto o sofredor é responsável pela sua própria condição de miséria?

Tal cristão ignora o Deus das escrituras, que nos ordena a proteger os pobres, as viúvas e os órfãos, sem lhes perguntar como ficaram pobres, órfãos ou viúvas.” (Bolt 1989:142).

E nesses termos, o povo de Deus segue julgando como um Deus as necessidades de outros. As pessoas solteiras adultas também não escapam deste juízo em suas questões.

Para Nardi é possível identificar os dispositivos que caracterizam os modos de subjetivação próprios a cada contexto presentes na socialização primária (família e escola), nas marcas específicas de cada cultura e subcultura, na religião, nos códigos morais de cada sociedade e nas formas de inserção no mercado de trabalho. Para ele, num tempo de incertezas no mercado de trabalho, a família passa a se constituir no último nicho de segurança existencial. As decisões morais tornam-se dependentes de um julgamento de custo-benefício imediato. É a temporalidade da sobrevivência no dia após dia que define seu discurso moral. (Nardi 2006:188, grifo nosso).

A partir dessas afirmações podemos entender porque as pessoas solteiras adultas são tão susceptíveis à opinião de familiares e amigos, que reproduzem conceitos irrefletidos e subjetivados da maioria que ditam as regras do bem comum. Na família e círculo de relacionamentos eles obtêm segurança, mesmo se considerarmos que também as famílias entram em crise. Elas são criticadas, mas acolhidas. Isso pode explicar porque elas se sujeitam ao descrédito e desqualificação mesmo que sofram por causa disso.

Avaliar os modos de subjetivação aplicados às questões dos sentimentos das pessoas adultas não casadas nos ajuda a sinalizar as condutas sociais e a melhorar a condição destas no contexto eclesial e social. Para Nardi, “Os processos de subjetivação constituem-se nas diferentes formas pelas quais os sujeitos se constroem e são construídos a partir de suas experiências de vida.” (Nardi 2006:133). Podemos dizer que o contexto é um grande responsável para que o indivíduo seja como é. Ou seja, é no contexto mais particular de convivência, como família e igreja, por exemplo, assim como no contexto social mais amplo, que a subjetividade é produzida.

Nossas igrejas simplesmente reproduzem inconscientemente o modo dominante de subjetivação que exclui as pessoas adultas não casadas. Neste sentido, a revisão do comportamento dos participantes da comunidade de fé em relação a esse grupo poderia aliviar o sofrimento de integrantes do mesmo. Percebe-se, também, a necessidade de criar dispositivos voltados a produção de modos de existência mais inclusivos e afirmativos para as pessoas adultas não casadas.

SER UMA PESSOA ADULTA NÃO CASADA

Em uma pesquisa nossa, pediu-se que escrevessem uma frase definindo o atual estágio de suas vidas. Algumas respostas nos ajudam nesta reflexão sobre seus sentimentos, sua condição e suas limitações reais ou imaginárias:

‘-Não sei, estou perdida..., 35 anos, separada a 7 anos, 3 filhos....
-Estou num deserto..., 45, solteira.
-Tenho passado por momentos difíceis em minha vida no sentido de conhecer e reconhecer erros em mim. Sofro muito e me culpo constantemente..., 38, solteira.
-Interditada e em obras para grandes e profundas mudanças, 32, solteira.
-Pressões diárias, assediado, dificuldade de fazer amizades e confiar, 42, divorciada.
-Me sinto muito só e deveria pedir perdão a Deus pois não deveríamos por termos a Jesus, mas na verdade sinto uma grande solidão..., 47, divorciada.
-Parece que minha oportunidade de vida já passou. Não sou mais considerada alguém de valor a não ser por pessoas na mesma condição. Tenho filhos para cuidar. -Sinto-me a escória da igreja; pois ela só dá valor a pessoas casadas, 45, divorciada.
-É complicado lidar muitos anos com a solidão; com o preconceito das pessoas e com a pressão da sociedade por estar só, 27, solteira.
-É uma vida sem graça., 39, solteiro.
-A comunidade me acha um fracassado, 42, divorciado.”

Uma madrasta em nossa comunidade, lidando com suas dores da esterilidade e após ter perdido de morte súbita um enteado que havia tentado amar como seu próprio filho, lidando com sentimentos de não saber exatamente o que havia perdido, ouviu de uma pessoa próxima que seus sentimentos são desprezíveis se comparados aos de uma mãe ou um pai. Será que ela precisava ouvir isso? Era uma jovem adulta que lidou por anos com sua solteirice, sofreu por causa da esterilidade quando teve oportunidade de casar-se, teve seus sentimentos não legitimados quando perdeu seu enteado. Isso porque há um modo de produção de subjetividade dentro de nossas igrejas que prega que sentimentos de felicidade ou tristeza legítimos só ocorrem dentro de padrões pré-estabelecidos de casamentos onde pais e filhos naturais são sinônimos de bênção.

As situações onde aparecem madrastas, padrastos, enteados, são tratadas como conseqüências de erros ou descompasso com o padrão. Então, obviamente, os sentimentos não têm o mesmo valor. Afinal, os sofrimentos nesses casos são merecidos. Isto poderia ser reportado à teologia da retribuição. Se me comporto como dita as regras da teologia, então sou recompensado por Deus. É uma forma de padronizar o comportamento da coletividade dentro das igrejas.

Collins, em seu trabalho de aconselhamento, detectou alguns problemas causadores de sofrimento entre solteiros (as): Solidão, auto-estima, identidade e orientação na vida, sexualidade, instabilidade emocional, irritação, raiva ou medo. “Alguns solteiros lutam, geralmente sozinhos, com a dor dos relacionamentos desfeitos, com os namoros platônicos, ou com o medo de acabar não se casando por causa de seu perfeccionismo ou de seus padrões elevados”. (Collins 2004:432). Eles sofrem com lembranças tristes de experiências de relacionamentos que não levaram ao casamento. Existe a vergonha do estado civil que não se torna o ideal. Muitas pessoas nas igrejas ficam invisíveis para sobreviver ao questionamento de seu estado civil.

Collins capta bem este modo de subjetividade ao afirmar:

“[...] em nossa sociedade, as pessoas andam aos pares. Se um indivíduo vive sozinho, muitos o vêem como um desajustado, um estorvo para os amigos casados, que nem sempre confiam nele e ficam na dúvida se deveriam incluí-lo em suas atividades sociais ou não. Afligidos pela solidão, insegurança, baixa auto-estima e, às vezes, rejeição, muitos solteiros estão sempre sendo lembrados de que estão em descompasso com o resto da sociedade.” (Collins 2004: 428)

As pessoas solteiras que adiam a possibilidade de casamento por tempo indeterminado sentem-se, à medida que os anos passam, alheias às aspirações de sua igreja. Os sentimentos gerados são os mais diversos e confusos. É toda uma produção de subjetividade, a partir de várias instâncias, que fazem configurar determinadas formas de existência que geram esses sentimentos.

Segundo o terapeuta Collins,

"Muitos se sentem sozinhos, lutam para se ajustar ao período de transição entre o casamento e a nova vida de solteiro, tem uma forte sensação de fracasso e culpa, e enfrentam dificuldades com sua auto-imagem. Tudo isso pode ser acentuado pelas críticas dos outros ou pelo ostracismo pessoal, inclusive por parte dos familiares e de membros da igreja intolerantes e rancorosos” (Collins 2004:431)."

Uma pessoa que não casou por questões não resolvidas de sua infância, sofreu muito quando, por motivos de saúde teve seu útero extraído aos 41 anos. Foi para ela como se tivessem morrido todos os seus filhos que não teve. Morreram todas as possibilidades de filhos e sonhos que foram roubados desde a infância. Como não considerar legítimo e não tratar de forma digna estes tipos de sentimentos que como ela mesma disse a deixou em estado de coma por longos anos de sua vida e perdeu sua juventude?

Amador e Kiersky, psicólogos e doutores, com sua longa experiência com terapias e por terem se casado mais tarde, afirmam que algumas situações no convívio com casais geram constrangimento às pessoas solteiras. Um exemplo disso é quando um casal consulta um ao outro para decidir o que e quando fazer quando querem ter um compromisso com a pessoa solteira. Sempre a pessoa solteira tem que se sujeitar a opinião do casal. A data e a duração do programa quase sempre são ditados em função dos compromissos do casal ficando claro que os compromissos do casal são mais importantes e menos flexíveis que os das pessoas solteiras. Mudam facilmente os programas e pressupõem saber sempre como as pessoas solteiras se sentem e tomam providências unilaterais, como convidar alguém estranho só para a pessoa solteira não se sentir sozinha em algum evento, mesmo sem perguntar a ela sobre seus sentimentos. (Amador e Kiersky 2003:273).

Para Prado filho & Martins é importante a resistência aos modos de objetivação e de subjetivação na identificação e reconhecimento de si. (Prado filho & Martins 2007). Muitas pessoas adultas sentem-se isoladas em suas próprias igrejas por não se sentirem compreendidas e porque elas mesmas acreditam que são responsáveis por sua dor. Tirando a carga de responsabilidade excessiva subjetivada de sobre os seus ombros poderia ajudá-la a superar seus constrangimentos.

A ESPERA PELO CASAMENTO

A maior parte dos sentimentos constrangedores das pessoas solteiras vem da alimentação de uma série de expectativas sobre o que significa ser casado (a). Essas expectativas são reflexos de um roteiro pessoal de casamento que se formou ao longo da vida, desde a infância. Esse roteiro faz a pessoa solteira pensar, agir, sentir e perceber de uma maneira que pode fazer sua vida ser uma alegria ou uma desgraça. (Amador e Kiersky 2003:23).

Outro fator que interfere em suas expectativas sobre o casamento é o roteiro cultural. As expectativas de nossa cultura denotam uma espécie de preconceito contra as pessoas solteiras. Por exemplo, se o casamento é um sinal de maturidade, respeitabilidade e sucesso, então estar solteiro (a) sugere que você é imaturo, irresponsável e fracassado. (Amador e Kiersky 2003:26).

Nossa pesquisa de opinião em 2009 identificou que 73% das pessoas pesquisadas tem a expectativa de encontrar um(a) parceiro(a). A Pesquisa Sepal/Apoio, 2006, obteve um índice semelhante para a mesma pergunta com 84%. De acordo com Chapman, a grande maioria das pessoas tem o desejo de casar por causa do desejo de amar e ser amada. (Chapman 2004:194). Uma mulher divorciada há 6 anos, afirma: “Me sinto muito bem resolvida em tudo. Só me falta um companheiro.” Uma mulher com menos de 30 anos, reconhece: “minha vida é solitária, eu gostaria de ter minha própria família (marido e filhos) e vivo com medo de estar só na velhice.” Um homem separado há mais de 7 anos afirma: “Se eu pudesse casar hoje, seria o homem mais feliz do mundo.”

Amador e Kiersky, afirmam, em relação à cultura americana: “O roteiro cultural exige o casamento e tem horror a solteirice. Ele pode gerar uma pressão tremenda para você ter alguém sempre que estiver sozinho”. (Amador e Kiersky 2003:234). Esses preceitos não são diferentes em nossas igrejas latino-americanas. A pressão da própria pessoa solteira pelo casamento pode ser tamanha que não consegue examinar suas reais motivações para permanecer solteira.

August e August observam que para muitas pessoas solteiras, a longa espera por um casamento causa sofrimento e desmotiva a iniciativa de um trabalho em sua comunidade que acredita que os casais são melhores qualificados para as mais diversas tarefas e funções. Então as pessoas solteiras sofrem com seu estado civil como se fosse uma lacuna em seu ser. Este pensamento tem permeado nossas igrejas que percebem a pessoa solteira como alguém não resolvida e conseqüentemente não qualificada. O própria pessoa solteira se vê assim. Esta percepção é produzida na pessoa solteira.

Prado filho & Martins exemplificam até onde é capaz de ir a subjetivação:

"[...] Não é suficiente a objetivação pelo discurso psiquiátrico e pelo jogo da norma para produzir, por exemplo, um louco, mas é necessário ainda que este vá ao encontro da marcação, que ele se reconheça no diagnóstico como sujeito da loucura e o reproduza em si mesmo, subjetivando-se como louco." (Prado filho & Martins 2007)

Nesse mesmo pensamento, não basta às pessoas adultas saberem que estão na contramão da sociedade, é necessário que elas sofram por estarem nesta contramão. Não basta que lhes digam, de alguma forma, que elas são infelizes. É necessário que elas sofram essa infelicidade. Ninguém se sentiria infeliz por algum fato se alguém não enfatizasse que nessa determinada situação o padrão é que se sofra.

Nesse caso é válida a afirmação de Prado filho & Martins que é importante a resistência aos modos de objetivação e de subjetivação na identificação e reconhecimento de si. (Prado filho & Martins 2007). As motivações das pessoas adultas não casadas são as mais diversas. Para muitas é difícil encontrar um sentido na vida fora do casamento. Muitas pessoas solteiras lutam com esta questão por longos anos e, as vezes, entram num conformismo sem compreender o sentido de sua vida. “Sentido é algo que o ser humano procura naturalmente para se entender enquanto ser, e construir significados e referências que sustentem sua própria vida.” (Rodrigues 2010:45).

A Logoterapia ensina que há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido da vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma ação. O segundo está em experimentar algo ou alguém; em outras palavras o sentido pode ser encontrado não só no trabalho, mas também no amor [...] o terceiro é a pessoa mesmo transformar sua tragédia em triunfo, crescendo para além de si mesma. (Frankl 1985:124).

Para muitas pessoas solteiras, este segundo caminho indicado por Frankl é o principal caminho para a realização pessoal plena. Estamos numa época em que é natural que o projeto de casamento venha depois da formação universitária e em muitos casos, depois de adquirir casa própria. Mas, na maioria dos casos, a expectativa é de que o projeto de casamento seja condição para a plenitude da felicidade, mesmo que as clínicas de psicologia e escritórios pastorais estejam repletos de casos de casamentos sofridos e difíceis. Elas querem a experiência do casamento. Afinal foi-lhes dito a vida inteira que este é o padrão a ser seguido e que felicidade plena só com o casamento. E o atraso no projeto de casamento gera angústia e sentimento de inferioridade. Às vezes, a ansiedade para que solteiros (as) casem impede de perceber-se os sentimentos deles (as) em relação ao ser solteiro(a).

CONCLUSÕES PARCIAIS: A ESPERANÇA È CAPAZ DE LIBERTAR

Ao concluir esse trabalho, quero salientar que não é difícil ocorrer mudança no comportamento de uma comunidade eclesial cristã que quer praticar os ensinamentos de Cristo com relação ao seu próximo e tem seu foco no ser humano, como alguém que tem um valor individual para seu Criador e goza de seu cuidado na integralidade de seu ser.

Quando ela percebe o quanto de seus hábitos na coletividade são subjetivados em função da acolhida acrítica dos modos dominantes de subjetivação de padrões do contexto histórico, econômico e cultural e que esses hábitos causam sofrimento e sentimento de exclusão às pessoas adultas solteiras, há uma tendência de abertura ao diálogo e nítida mudança de comportamento. Isso temos percebido em igrejas que de alguma forma são influenciadas por trabalhos eclesiais como o nosso que de alguma forma se abrem à experimentação de dispositivos com finalidade de produzir outros modos de existência.

As pessoas casadas, por falta de esclarecimento e até de hábito, não conseguem compreender as pessoas solteiras e, na tentativa de ajudar, contribuem para a condição de desconforto do(a) jovem adulto(a). O contexto diz que ele (a) é sofredor por viver fora do padrão de família tradicional. Os(as) solteiros(as) querem ser aceitos(as) como são e conviver normalmente com casais sem serem cobrados(as) sobre sua condição. Isto propicia segurança emocional. Amador e Kiersky salientam ainda que problemas de relacionamento entre solteiros(as) e casais poderiam ser resolvidos se não houvesse uma adesão cega ao imperativo do casamento e uma falta de comunicação e aceitação das necessidades de cada um. (Amador e Kiersky 2003:259). Esses padrões são subjetivados desde o início da cristandade. E existe esperança para os que têm sofrido em sua condição de solteiro (a).

Em seu capítulo sobre o poder da comunidade terapêutica, Crabb e Allender escrevem que “a profunda intimidade com Cristo, que só o sofrimento pode criar, nos capacita a entrar na vida de outras pessoas com poder de cura.” (Crabb e Allender 2000:138).

A cultura terapêutica moderna [...] focaliza o indivíduo. À medida que o paciente ou aconselhando aprende a cuidar de suas próprias necessidades e lida com suas próprias preocupações, assume-se que ele poderá reentrar à comunidade com um saudável respeito pelos outros. (Crabb e Allender 2000:144).

Frankl, em sua experiência de 25 anos na direção do departamento de neurologia de um hospital de clínica geral, testemunhou a capacidade de seus pacientes em transformar seus sofrimentos em vitórias humanas, contrariamente a uma cultura que considera o sofrimento degradante e vergonhoso. Não significa, pondera ele, que o sofrimento seja indispensável para a descoberta de sentido, mas mesmo se a pessoa não puder mudar a situação, pode escolher a sua atitude. (Frankl 1985:124). As pessoas solteiras adultas não precisam ficar constantemente em estado de sofrimento ou isolamento. Elas precisam reconhecer-se como indivíduos que tem o direito de escolher seu estado civil e de compreender suas verdadeiras motivações para ficarem solteiras. Precisa também identificar mentiras em seus conceitos que são subjetivados pela coletividade.

Não precisará muito tempo para que nossas igrejas acordem para a necessidade de investigar seus conceitos e avaliá-los à luz da verdade bíblica cristã de inclusão e de resistência aos modos dominantes de subjetivação. Então será a libertação das pessoas adultas solteiras em seus propósitos de vida.

REFERÊNCIAS

AMADOR, Xavier; KIERSKY Judith. 2003 Ser solteiro (a) num mundo de casados. São Paulo: Gente.

AUGUST, Hartmut; AUGUST Mariluce E. M. 2009 Jovens Adultos – Potencial Invisível na Igreja. Monografia. Conteúdo não Publicado.
BÍBLIA. Português. 2000 Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Vida.
BOLT, Martin; MYERS, David. 1989 Interação Humana. São Paulo: Editora Vida, 172p.

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