PESSOAS ADULTAS NÃO CASADAS – DO BIOPODER À BIOPOTÊNCIA

 


Hartmut August, Economista. Mestrando em Teologia pela PUC-PR em 2010. hart@ausland.com.br

Mary Rute Gomes Esperandio, Psicóloga (CRP 08/13082). Doutora em Teologia. Professora no Programa de Mestrado em Teologia da PUC-PR mresperandio@gmail.com


RESUMO:

Este artigo trata do biopoder que ocorre no ambiente evangélico em relação às pessoas adultas não casadas e contrapõe ao biopoder a noção de biopotência como alternativa possível para uma vivência de fé em comunidade mais plena e com sentido para estas pessoas.


PALAVRAS-CHAVE: Pessoas adultas não casadas. Acolhimento. Envolvimento. Biopoder. Biopotência.

1. Introdução

Vivemos num período de transformação na sociedade brasileira, pois cresce o número de famílias formadas por apenas um adulto, com ou sem filhos. Como não podia deixar de ser, essas transformações também afetam as igrejas evangélicas e seus participantes. Para uma melhor compreensão da realidade das pessoas adultas não casadas no meio evangélico, AUGUST e AUGUST (2009) conduziram uma pesquisa de opinião junto a este público.

Neste artigo serão analisados os resultados dessa pesquisa referentes ao relacionamento entre as pessoas adultas não casadas e as pessoas que exercem algum poder sobre elas: os pastores e líderes de sua igreja, seus amigos da igreja e os psicólogos cristãos.

Utilizando o conceito de biopoder, será analisado de que forma as pessoas que exercem poder no âmbito da igreja afetam a maneira das pessoas adultas não casadas se relacionarem com sua igreja local.

Finalizando, a partir dos conceitos de biopotência, pretendo indicar caminhos que conduzam as pessoas adultas não casadas de uma vida de sobrevivência para uma vida que faça sentido.

2. É crescente o número de famílias com apenas um adulto

No artigo intitulado A nova cara da família brasileira, o jornalista Vinicius Boreki (Boreki 2010) cita dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, demonstrando que a participação das famílias tradicionais, onde há a presença de pai, mãe e filho(s), é cada vez menor no Brasil. No intervalo de apenas 15 anos (de 1992 a 2007), o número de casais com filhos caiu 11,2%, ao passo que o número de mães ou pais com filhos e de mulheres ou homens sozinhos aumentou de 25,5% para 33,6%.

Essa nova realidade social, onde é cada vez mais freqüente o número de lares compostos por apenas um adulto, já foi reconhecida pelo capitalismo como importante filão de mercado. A revista de economia e negócios Exame, no extenso artigo de capa Estudo Mostra as Implicações Econômicas das Mudanças Demográficas (Exame 2008), revela que a cada 10 anos dobra o número de pessoas que moram sozinhas. Assim, se em 2006 havia cerca de 6 milhões de pessoas que viviam sozinhas no Brasil, a projeção é de que tenhamos 12 milhões de pessoas morando sozinhas em 2012.

Embora a economia já tenha identificado o potencial consumidor das pessoas que moram sozinhas, muitas pessoas ainda discriminam aqueles que não são casados. COLLINS (2004:238), psicólogo com doutorado em psicologia clínica e autor do livro best-seller Aconselhamento Cristão, afirma que

"na nossa sociedade, as pessoas andam aos pares. Se um indivíduo vive sozinho, muitos o vêem como um desajustado, um estorvo para os amigos casados, que nem sempre confiam nele e ficam na dúvida se deveriam incluí-lo em suas atividades sociais ou não. Afligidos pela solidão, insegurança, baixa auto-estima e, às vezes, rejeição, muitos solteiros estão sempre sendo lembrados de que estão em descompasso com o resto da sociedade."

Nesta mesma linha de pensamento externado por COLLINS, AMADOR e KIERSKY (2003:234), ambos especialistas em aconselhamento para solteiros, afirmam que “o roteiro cultural exige o casamento e tem horror à solteirice. Este roteiro cultural pode gerar uma pressão tremenda para você ter alguém sempre que estiver sozinho.” Ainda de acordo com os dois especialistas, o roteiro cultural pressiona a pessoa não casada com pensamentos como “não fique para trás”, “você só tem status quando é casado” e “você é um perdedor se for solteiro”.

COLLINS (2004:430 a 432) enumera as 5 categorias mais numerosas de pessoas não-casadas:

a. As que não encontraram um companheiro ou decidiram adiar o casamento;
b. As que escolheram não se casar;
c. Pessoas que tiveram casamentos fracassados;
d. Pessoas que perderam o cônjuge por morte;
e. Pessoas com outras razões para permanecer solteiras.

Essa mudança no perfil da população brasileira também se reflete no ambiente evangélico. Desta maneira, a igreja evangélica brasileira, que prega os valores cristãos do casamento e da família, se vê atropelada pelo contexto. Separações, divórcios e pessoas que permanecem solteiras são realidades cada vez mais presentes nas igrejas. A questão é: Como lidar com isto? Como cuidar de pessoas que não vivem o ideal marido+mulher+filhos?

3. A aproximação das pessoas adultas não casadas com suas igrejas

Para conhecer melhor a realidade das pessoas adultas não casadas que freqüentam as igrejas evangélicas, foi realizada uma pesquisa por AUGUST a AUGUST (2009). O objetivo desta pesquisa foi discernir como tem sido a experiência de aceitação e atendimento às pessoas adultas não casadas nas igrejas evangélicas e o impacto dessa experiência na vida dessas pessoas. A pesquisa, respondida por 300 pessoas evangélicas no Brasil, apresentou informações extremamente relevantes para a compreensão do relacionamento entre essas pessoas adultas não casadas e suas igrejas.

Uma pergunta indagava se o fato de a pessoa não ser casada havia causado distanciamento ou aproximação no seu relacionamento com a igreja. Outra pergunta questionava se a pessoa, na sua condição de não casada, havia recebido apoio dos seus pastores e líderes, dos amigos da igreja e dos psicólogos cristãos. Veja abaixo os gráficos.

FIGURA 1- DISTANCIAMENTO X APROXIMAÇÃO
FONTE: AUGUST e AUGUST (2009)

O primeiro gráfico acima (Média) demonstra que, para 42 % dos respondentes, o fato de não ser casado (a) não interferiu no seu relacionamento com a igreja. Porém, para 58 % dos respondentes, o fato de não ser casado (a) teve impacto no seu relacionamento com a igreja, sendo que para 29 % houve aproximação com a igreja e para outros 29 % houve distanciamento da igreja. Ou seja, na avaliação das pessoas adultas não casadas, a maioria foi afetada em seu relacionamento com a igreja pelo fato de não estar casado (a), seja positivamente, seja negativamente.

O segundo gráfico reflete o comportamento das pessoas adultas não casadas que receberam apoio dos pastores, líderes, amigos da igreja e psicólogos cristãos. Neste caso, o distanciamento da igreja caiu de 29 % para 20 % e a aproximação com a igreja aumentou de 29 % a 45 %. Estes percentuais demonstram que o apoio dado pela liderança às pessoas adultas não casadas em muitos casos surte efeito, ajudando-as a permanecerem na igreja a despeito de seu estado civil.

Já o terceiro gráfico reflete o comportamento das pessoas adultas não casadas que não receberam apoio dos pastores, líderes, amigos da igreja e psicólogos cristãos. Neste caso, o distanciamento da igreja subiu de 29% para 63 % e a aproximação caiu de 29 % para zero. Fica evidenciado que as pessoas adultas não casadas tem enorme dificuldade em se aproximarem de sua igreja quando as pessoas que exercem influência nessa igreja não lhes dão o devido apoio. Ou seja, se a liderança da igreja não apóia a pessoa adulta não casada, na grande maioria dos casos ele acaba se afastando.

4. O envolvimento das pessoas adultas não casadas nas igrejas

Outra pergunta da pesquisa indagava se, comparado com a época de jovem ou de casado (a), a pessoa estava mais envolvida na igreja ou menos envolvida. A exemplo da questão anterior, também nesse caso foi possível comparar as respostas com o eventual apoio recebido de parte das pessoas que exercem liderança na igreja. Veja abaixo os gráficos.

FIGURA 2- MAIOR OU MENOR ENVOLVIMENTO
FONTE: AUGUST e AUGUST (2009)

O primeiro gráfico acima (Média) demonstra que 30 % das pessoas adultas não casadas estão menos envolvidos na igreja do que na época de casado (a) ou de jovem, ao passo que 45 % afirmam que estão mais envolvidos na igreja do que antes. Pelas respostas obtidas, verifica-se que, para a grande maioria das pessoas que participaram da pesquisa, houve mudança no seu relacionamento com a igreja, seja para melhor, seja para pior.

O segundo gráfico reflete o comportamento das pessoas adultas não casadas que receberam apoio dos pastores, líderes, amigos da igreja e psicólogos cristãos. Neste caso, o grupo dos menos envolvidos caiu de 30% para 19 %, ao passo que o grupo dos mais envolvidos aumentou um pouco, passando de 45 % para 47 %. Estes dados demonstram o efeito positivo, mesmo que pequeno, gerado pela influência dos líderes da igreja sobre o grau de envolvimento das pessoas adultas não casadas.

Já o terceiro gráfico reflete o comportamento das pessoas adultas não casadas que não receberam apoio dos pastores, líderes, amigos da igreja e psicólogos cristãos. Neste caso, o grupo dos menos envolvidos mais do que dobrou, passando de 30 % para 63 %. Por outro lado, o grupo dos mais envolvidos caiu bruscamente, passando de 45 % para 13 %. Fica evidenciado que as pessoas adultas não casadas têm enorme dificuldade em se envolverem numa igreja onde as pessoas que exercem influência não lhes dão o devido apoio.

Analisando os resultados encontrados, observamos que a principal conclusão da pesquisa é que a maioria das pessoas adultas não casadas reage da mesma forma como é tratada pela igreja. Se a igreja as acolhe, a tendência é de que essas pessoas permaneçam na igreja, aumentando inclusive seu envolvimento. Se, por outro lado, a igreja não as acolhe, a tendência é de que essas pessoas se afastem da igreja.

5. Excluídos e sobreviventes - biopoder

O filósofo francês Michel FOUCAULT foi um estudioso da construção do poder nas relações sociais. Ele entendia que “o poder não se dá, nem se troca, nem se retoma, mas se exerce e só existe em ato. O poder não é primeiramente manutenção e recondução das relações econômicas, mas, em si mesmo, primariamente, uma relação de força.” (Foucault 1999:21). FOUCAULT afirmava que “poder é essencialmente o que reprime.” (Foucault 1999:21). Portanto, o poder se manifesta a todo momento, inclusive no convívio das pessoas com sua comunidade de fé.

Analisando as mudanças ocorridas no direito político a partir do século XIX, FOUCAULT (Foucault 1999:287) identificou que o velho direito de soberania – fazer morrer ou deixar viver - fora sutilmente substituído por outro direito, ou melhor, por “um poder exatamente inverso: poder de fazer viver e de deixar morrer.” Assim, no passado o soberano exercia seu poder condenando as pessoas à morte (fazer morrer) ou permitindo que continuassem vivas (deixar viver). Atualmente, ao contrário, o soberano exerce seu poder privilegiando determinadas pessoas ou classes (fazer viver) em detrimento de outras, as quais são deixadas em segundo plano (deixar morrer).

A esse poder massificante sobre as pessoas, FOUCAULT (Foucault 1999:289) chama de biopoder ou biopolítica. Pois “a biopolítica lida com a população, e a população como problema político, como problema a um só tempo cientifico e político, como problema biológico e como problema de poder.” (Foucault 1999:292 e 293). Dessa forma, para FOUCAULT, o biopoder procura estabelecer mecanismos reguladores sobre a população, com o propósito de controlar e induzir comportamentos. O biopoder, portanto, pretende conduzir as pessoas a um determinado comportamento desejado.

Depreende-se, pois, das análises foucaultianas do poder (a partir das quais aparecem os conceitos de biopoder e biopolítica), que o autor alcança uma conclusão no mínimo original: a percepção do entrelaçamento entre política e produção de modos de vida. Ao preocupar-se com a análise das estratégicas políticas voltadas à qualificação da vida – a biopolítica -, Foucault da extensão das conseqüências dessa prática que tanto possibilita a proteção da vida quanto, paradoxalmente, seu extermínio, como é o exemplo do nazismo” (Esperandio 2009:206).

Utilizando o conceito de biopoder desenvolvido por FOUCAULT, fica evidenciado que as pessoas adultas não casadas são submetidas a um biopoder nas suas igrejas locais. Um biopoder muitas vezes silencioso e sutil, porém nem por isto menos contundente. Nas comunidades onde a pessoa é acolhida (fazer viver), a chance de ela permanecer é muito grande. Ao passo que nas comunidades onde a pessoa não é acolhida (deixar morrer), a probabilidade de ela se afastar é enorme. Nas palavras da psicóloga e doutora em teologia ESPERANDIO (Esperandio 2008:4), podemos “afirmar que a política de controle da vida tem como objetivo principal a preservação de um tipo de vida em detrimento de outro.” Desta maneira, as pessoas adultas não casadas somente conseguem manter um relacionamento saudável com sua igreja local quando as pessoas que ocupam um lugar nessa igreja onde podem exercer mais poder sobre os outros e sobre um número maior de pessoas – que é a ideia do biopoder - as acolhem e possibilitam o seu envolvimento “apesar” de não serem casadas.

Segundo o filósofo italiano AGAMBEN, citado pelo filósofo brasileiro PELBART (Pelbart 2010ª:2), “o biopoder contemporâneo - e nisso ele parece seguir, mas também ‘atualizar’ Foucault - já não se incumbe de fazer viver, nem de fazer morrer, mas de fazer sobreviver. Ele cria sobreviventes. E produz a sobrevida.” Neste sentido, AMADOR e KIERSKY (Amador e Kiersky 2003:259) pontuam que “a sensação de invisibilidade corrói o tecido das relações afetivas dos solteiros com amigos e familiares, assim como sua auto-estima”. Portanto, as pessoas adultas não casadas, quando não acolhidas em suas igrejas são condenadas a uma vida de sobrevivência.

A mitologia grega nos apresenta a figura de Clítia, que ilustra muito bem este conceito de uma vida de sobrevivência. Clítia era uma ninfa aquática que havia se apaixonado pelo deus Apolo. Porém, como seu amor não era correspondido, Clítia passou a definhar. Clítia, segundo a lenda, passava o dia sentada no chão frio, com as tranças desatadas caídas sobre os ombros, alimentando-se somente de suas lágrimas e do gélido orvalho. Depois de um tempo, os pés de Clítia se enraizaram no chão e seu rosto se transformou num girassol (Bulfinch 2001:128). Assim como Clítia definhou em consequência de seu amor não correspondido, as pessoas adultas não casadas que não são acolhidas em suas igrejas também correm o risco de definharem.

O apóstolo Paulo escreve aos cristãos de Tessalônica “que o Senhor faça crescer e transbordar o amor que vocês têm uns para com os outros e para com todos, a exemplo do nosso amor por vocês.” (1 Tessalonicenses 3:12, o grifo é nosso). A orientação é clara no sentido de que o amor cristão deve ser efetivo e englobar todas as pessoas. O mesmo princípio é repetido pelo apóstolo quando afirma que “em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito.” (1 Coríntios 11:13). Portanto, o povo de Deus é exortado a amar a todos, independente de sua condição.

O escritor da carta de Tiago retoma a importância do acolhimento das pessoas fragilizadas na igreja, enfatizando que “a religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1:27). Tiago destaca que o verdadeiro cristianismo não consiste no cumprimento de determinadas práticas, mas no cuidado prático das pessoas vulneráveis, o que certamente inclui as pessoas adultas não casadas.

6. Caminhos a seguir - Biopotência

Em sua reflexão sobre o desespero, o teólogo dinamarquês Sören KIERKEGAARD (Kierkegaard 2003:21) argumenta que a superioridade da pessoa que pratica a fé cristã “está em poder curar-se.” Portanto, como cristãos temos a possibilidade de encontrar caminhos que conduzam as pessoas adultas não casadas de uma vida de exclusão e de mera sobrevivência para uma vida vitoriosa, uma vida que faça sentido.

Em sua reflexão sobre o desespero, o teólogo dinamarquês Sören KIERKEGAARD (Kierkegaard 2003:21) argumenta que a superioridade do ser humano sobre o animal está em ser suscetível de desesperar. Pois quando a pessoa reconhece que não está vivendo o ideal possível, o desespero pode conduzí-la à ação. Neste sentido, ainda segundo KIERKEGAARD, o sofrimento pode mobilizar a pessoa que pratica a fé cristã para conscientemente se mover em direção à cura. Portanto, como cristãos temos a possibilidade de encontrar caminhos que conduzam as pessoas adultas não casadas de uma vida de exclusão e de mera sobrevivência para uma vida vitoriosa, uma vida que faça sentido.

PELBART (Pelbart 2010a:1) propõe que “ao poder sobre a vida responde a potência da vida, ao biopoder responde a biopotência.” Por outro lado, o filósofo italiano Antônio NEGRI (Negri 2007:139), argumenta que “a dor é a chave que abre a porta da comunidade”, pois é a partir da dor que as pessoas se organizam para buscar o apoio mútuo e a sobrevivência. E será também a partir da dor sentida pelas pessoas adultas não casadas que surgirão os caminhos de transformação da dor da sobrevivência em biopotência.

Diante das mudanças sociais que estão em curso, cabe às igrejas levar em consideração a nova realidade das famílias brasileiras, porém sem diluir seu discurso. GIBELLINI (Gibellini 2002:309) argutamente coloca que o cristianismo no mundo contemporâneo se encontra diante de um dilema: se deseja ser relevante para a sociedade, deve adaptar-se a ela; se quer sobreviver, deve assumir sua condição de minoria. Segundo MOLTMANN, citado por GIBELLINI (Gibellini 2002:310),

identidade e relevância da fé parecem estar em relação inversa: se se quer salvar a identidade da fé cristã, acaba-se no gueto e no conservadorismo, e a fé perde, assim, sua relevância; se, pelo contrário, se se leva em conta a relevância da fé, acaba-se na incredulidade dos vários grupos cristãos que lutam pela libertação do homem, mas que, assemelhando-se aos movimentos de libertação, acabam perdendo a identidade cristã.

O terapeuta Gary CHAPMAN (Chapman 2004:103) escreve no livro Esperança para os Separados que “a igreja pode ser de grande ajuda no processo de estabelecer uma relação com Deus e com os outros. É motivo de grande alegria ver o que acontece quando uma pessoa separada e solitária se envolve com a vida de nossa igreja.” Portanto, há um grande potencial de melhoria na maneira como muitas igrejas lidam com as pessoas adultas não casadas.

Também os amigos e familiares de pessoas adultas não casadas podem contribuir para tornar o seu relacionamento com eles mais significativo. AMADOR e KIERSKY (Amador e Kiersky 2003:279) citam exemplos do que amigos e familiares casados podem fazer para levar os solteiros a se sentirem visíveis: ter vida social também na casa dos solteiros, incluir os solteiros em suas decisões, respeitar seus desejos, não tomar decisões por eles, não supor que sabem mais das coisas deles que eles próprios e não projetar seus sentimentos. Agindo desse modo, as pessoas adultas casadas valorizam as pessoas adultas não casadas ao invés de discriminá-las pela sua condição de não casadas.

PELBART qualifica o mundo onde já nem o biopoder pega, constituído pelas pessoas sem comunidade, que por isso mesmo clamam por uma “comunidade por vir” (Pelbart 2010a:9). Desta maneira, às pessoas adultas não casadas é apresentado o desafio de ajudarem na construção de um novo tipo de comunidade, onde seu valor e sua contribuição sejam reconhecidos. Da mesma forma, cada comunidade de fé tem como responsabilidade produzir políticas de afirmação da vida. O acolhimento, a valorização e a “visibilização” de um grupo “invisibilizado” poderá ser uma estratégia de uma política voltada à biopotência.

Em muitas circunstâncias, a busca de um sentido para a vida representará para as pessoas adultas não casadas o elemento fundamental para saírem de seu isolamento. Victor FRANKL (Frankl 1992:75), terapeuta que passou pelos campos de concentração nazistas da II Guerra Mundial, afirma que

[o ser humano] originariamente se caracteriza por sua busca de sentido ao invés de sua busca de si mesmo. Quanto mais se esquece a si mesmo – entregando-se a uma causa ou a uma pessoa – tanto mais humana é a pessoa. E quanto mais imersa e absorvida em alguma coisa ou alguém que não seja a si própria, tanto mais ela se torna ela mesma.

Num capitalismo baseado em redes e conexões sociais, caberá aos adultos não casados viabilizar outras redes, “redes autônomas, que eventualmente cruzam, se descolam, infletem ou rivalizam com as redes dominantes” (Pelbart 2010b:3). Conectar-se com outras pessoas que estejam vivendo realidades semelhantes, ajudará para que juntos reconheçam e construam saídas comuns para seus conflitos e lhes proporcionará o convívio em ambientes seguros e com potencial de vida. De igual modo, as comunidades de fé podem favorecer essas conexões e funcionar como dispositivos de produção de biopotência.

PELBART (Pelbart 2010b:6), enfatiza que “o que vem à tona com cada vez maior clareza é a biopotência do coletivo, a riqueza biopolítica da multidão”. Esta multidão está sendo composta pelas pessoas adultas não casadas que se conectam em redes e que, conforme HARDT e NEGRI (Hardt e Negri 2001:419), reconhecem sua singularidade e atuam em cooperação mútua para construir uma realidade nova, onde todos são aceitos, acolhidos e envolvidos em suas igrejas locais, independente de seu estado civil.

Conclusão

Vimos que a sociedade brasileira não é mais a mesma. O percentual de lares constituídos por apenas um adulto com ou sem filhos está aumentando. O capitalismo reconhece esta realidade como um novo filão de mercado. Essa nova realidade também se faz presente no meio evangélico.

Na análise dos resultados da pesquisa AUGUST e AUGUST (2009), ficou evidenciado que a maioria das pessoas adultas não casadas reage da mesma forma como é tratada pela igreja. Se a igreja as acolhe, a tendência é de que estas pessoas permaneçam na igreja, aumentando inclusive seu envolvimento. Se, por outro lado, a igreja não as acolhe, a probabilidade destas pessoas se afastarem da igreja é muito grande.

Aplicando o conceito de biopoder de FOUCAULT, vimos que as pessoas adultas não casadas somente conseguem manter um relacionamento saudável com sua igreja local quando as pessoas que ocupam um lugar nessa igreja onde podem exercer mais poder sobre os outros e sobre um número maior de pessoas – que é a idéia do biopoder - as acolhem e possibilitam o seu envolvimento “apesar” de não serem casadas.

Às pessoas adultas não casadas cabe buscar um sentido para a vida em cooperação mútua para construir uma realidade nova, onde todos são aceitos, acolhidos e envolvidos em suas igrejas locais, independente de seu estado civil.

Este movimento das pessoas adultas não casadas para a biopotência deve ser favorecido pela comunidade de fé onde elas estão inseridas. Desta forma, as igrejas têm um papel fundamental em criar condições que favoreçam os processos de afirmação da vida, independentemente do estado civil, para que as pessoas na condição de não casadas tenham espaço para se movimentar em direção a processos de conexão e de afirmação de sua potência de vida.

A partir da perspectiva da biopolítica como biopotência, e também a partir da noção de multidão apresentadas ao longo dessa reflexão, “se podem visualizar brechas para um fazer teológico que crie condições para o desenvolvimento de estilos e projetos de vida singulares, que escapem de algum modo aos totalitarismos das subjetivações contemporâneas” (Esperandio 2009:211), a exemplo da prática de exclusão daqueles que não se encaixam nos padrões dominantes – como é o caso das pessoas não casadas.

Referências

AMADOR, Xavier e KIERSKY Judith 2003, Ser Solteiro(a) num mundo de casados, São Paulo, Gente.
AUGUST, Hartmut e AUGUST Mariluce E. M. 2009, Jovens Adultos – Potencial Invisível na Igreja, Curitiba, monografia do Curso de Pós-Graduação em Teologia Pastoral, Faculdade Fidelis.
Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional 2000, São Paulo, Editora Vida.
BULFINCH, Thomas 2001, O Livro de Ouro da Mitologia, Rio de Janeiro, Ediouro.
BOREKI, V. 2010, A Nova cara da família brasileira, Gazeta do Povo de, <http://www.gazetadopovo.com.br/ vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1007637&tit=A-nova-cara-da-familia-brasileira>. Acesso em 29 mai. 2010.
CHAPMAN, Gary 2004, Esperança para os Separados, São Paulo, Mundo Cristão.
COLLINS, Gary R. 2004, Aconselhamento Cristão – Edição Século 21, São Paulo, Vida Nova.
ESPERANDIO, Mary R. G., 2009, Biopolítica e Teologia: A Teologia tem algum papel nas biopoliticas contemporâneas? In: SANCHES, Mario A.. (Org.). Criação e Evolução - Diálogo entre Teologia e Biologia, Curitiba, Ave Maria.
ESPERANDIO, Mary R. G., 2008, Subjetividade Contemporânea e a Pesquisa em Teologia. In: BOBSIN, O., et al. Uma religião chamada Brasil: estudos sobre religião e contexto brasileiro, São Leopoldo, Oikos.
FOUCAULT, Michel 1999, Em Defesa da Sociedade, São Paulo, Martins Fontes.
FRANKL,Victor 1992, A Presença Ignorada de Deus, São Leopoldo, Sinodal; Petrópolis, Vozes.
HARDT, Michael e NEGRI, Antonio 2001, Império, Rio de Janeiro, Record.
KIERKEGAARD, Sören 2003, O Desespero Humano, São Paulo, Martin Claret.
NEGRI, Antonio 2007, Jó – A Força do Escravo, Rio de Janeiro, Record.
PELBART, Peter Pál, 2010, Vida nua, vida besta, uma vida, http://pphp.uol.com.br/ tropico/html/textos/2792,1.shl, acesso em 16 jun. 2010.
PELBART, Peter Pál, 2010, Poder sobre a vida, potência da vida, http://pphp.uol.com.br/ tropico/html/textos/1462,1.shl, acesso em 16 jun. 2010.
STEFANO, Fabiane, SANTANA, Larissa e ONAGA 2008, “Retrato dos Novos Consumidores Brasileiros”, Revista Exame, São Paulo, n. 916: capa.

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